Ócio criativo e a pausa como prioridade na rotina
Estipular momentos na rotina para a pausa pode ser mais benéfico para a produtividade do que se imagina
Em um mundo em que tudo flui de maneira acelerada, parar por um momento parece ser sinônimo de ficar para trás. Aproveitar o descanso para antecipar demandas, buscar suplementos para aumentar a energia e produtividade, e usar metodologias para cumprir tarefas com mais eficiência são tópicos comuns hoje. Mas e se sua rotina incluísse momentos para simplesmente parar? Essa é a proposta do ócio criativo.
Desenvolvida pelo sociólogo italiano Domenico de Masi, a teoria do ócio criativo leva em conta a necessidade fundamental da mente para o descanso. É justamente numa sociedade em que a busca por produtividade intensa e resultados ao instante são objetivos constantes, é que incluir momentos de descontração e desconexão com os afazeres diários se torna ainda mais indispensável.
Para Domenico, nossa sociedade transformou o trabalho em algo excessivo e entediante. De acordo com ele, são cada vez mais perceptíveis as “intromissões” das obrigações profissionais na vida das pessoas, e isso tem trazido fortes consequências sociais. Seu trabalho focou em defender o direito do trabalhador a buscar atividades que lhe davam prazer, em perseguir seus assuntos que despertavam paixão.
Com um chamado a reflexão que destoa do que estamos acostumados a ver hoje, De Masi se tornou conhecido no mundo todos por destacar a necessidade básica do ser humano em ter horários livres para fazer o que gosta, sem necessariamente estarem atrelados a uma busca constate por evolução pessoal ou profissional. O resultado é mais autoconhecimento e tempo de qualidade.
No ócio criativo o foco não é simplesmente “fazer nada”, mas incorporar na rotina momentos livres para que se tenha tempo de qualidade. De acordo com a teoria, é justamente nesses momentos de descontração em que a criatividade e as grandes ideias são aguçadas. Dessa forma, as pausas são fundamentais não só para manter uma boa qualidade de vida, mas também tem reflexo direto na produtividade.
De Masi ganhou destaque na comunidade internacional, e sua obra foi fortemente direcionada para a sociologia do trabalho e a criatividade. Defensor árduo da qualidade de vida como peça fundamental da criatividade, o autor lançou em 2014 “O Futuro Chegou”, em que reflete sobre como o mundo deveria seguir de acordo com a nova ordem mundial e destacando o Brasil como exemplo.
O pedagogo e docente da UniBRAS Digital, Rafael Moreira, defende as pausas da teoria do ócio criativo como fundamentais. Para ele, muitas das facilidades que temos no dia-a-dia nos fazem assumir uma posição automática, em que há um acúmulo de atividades. Essa tentativa de subir mais de um degrau por vez nos induz a sobrecarga e a falha.
“De Masi dizia que sua teoria não era simplesmente parar por preguiça, e eu concordo. Nós devemos ter pausas para compreender o que realmente estamos fazendo, falando, escrevendo, ouvindo e ainda explorando a mente. Penso que o ócio é rever o que não vemos ou ver com novos olhos coisas que vemos diariamente e nem sempre observamos”.
Mas quando Domenico se refere ao ócio criativo como uma necessidade de fazer pausas na rotina, ele não está se referindo somente ao trabalho em si, mas a qualquer atividade que exija foco e esforço. Logo a rotina de estudos também é uma delas. Ao reservar um período de descanso entre os livros, pode-se gerar conexões e insights poderosos sobre o conteúdo – para além do benefício da pausa.
Como colocar o ócio criativo em prática
Parece uma simples pausa, mas nem sempre envolve ficar parado. O ócio criativo é um conceito amplo, e vai muito além do “ficar sem fazer nada”. É também um tema muito pessoal, já que cada um tem seus gostos e excentricidades. Para alguns pode ser fundamental fugir das telas por exemplo – se conectar com a natureza.
O ócio criativo pode ser uma atividade física. Alguns minutos de esteira na academia, uma caminhada no meio da tarde, uma aula de natação. Também pode envolver uma atividade intelectual, como ler alguma obra sem qualquer interesse profissional ou técnico, assistir uma série cômica com muitas temporadas, ou mesmo aprender um idioma novo por simples curiosidade.
A ala dos hobbies é um prato cheio de possibilidades. Ela envolve esportes, atividades artísticas, dança, atividades culturais. Outra atividade muito comum no ócio criativo é cozinhar – há quem esqueça de qualquer afazer quanto se concentra na cozinha, e sente muito prazer nisso. Ouvir música, meditar, fazer yoga são outras possibilidades.
Já sendo mais objetivo para uma simples pausa, estipular momentos para parar no meio do expediente, fazer uma refeição e conversar com colegas de trabalho, família ou amigos, é o que os suecos chamam de fika, costume enraizado na cultura do país escandinavo, e lavado muito a sério pelas empresas de lá.
As possibilidades são infinitas, e entender qual atividades – ou atividades -se encaixam melhor na rotina pessoal pode levar um certo tempo. O importante é entender que os pequenos momentos pessoais devem fazer parte do dia-a-dia, e que sem saúde física e mental, além e satisfação pessoal e com a própria vida, ninguém produz bem. (Texto: Bruno Corrêa – Assessoria de Comunicação Ecossistema BRAS Educacional)